Daniel Bilac

Monumento vidraça monumento ruína

Em “Monumento vidraça monumento ruína”, Daniel Bilac nos mostra desenhos, colagens e pinturas realizadas em papel. Os trabalhos do artista assumem a rasura, o apagamento e o erro em seus processos construtivos, gerando um potente comentário em torno dos monumentos e das ruínas, duas possíveis pontas de uma mesma narrativa que frequentemente ocorre no espaço urbano. O papel se oferece como superfície para, junto com pinturas e colagens, receber interferências que nos remontam ao universo do graffiti e do “pixo”, mas com um surpreendente grau de sofisticação na composição pictórica.

Segundo Daniel Bilac, nos últimos dois anos a questão da disputa pelo espaço e pela visibilidade na cidade se colocou para ele de uma maneira incontornável contribuindo assim para o resultado final de seu trabalho.

“Da mesma maneira que buscava responder a isso como cidadão, entendi que também era necessário responder a isso como artista. Eu precisaria considerar o espaço, este que habitamos, e também um imaginário que alcançasse o outro não apenas como indivíduo, mas como parte de uma coletividade. Talvez a precariedade, a sobreposição, a rasura e o apagamento, que já eram presentes na minha prática, tivessem já uma filiação com a vivência na cidade e a maneira como ela lida com seus cartazes, pixos, lambe-lambes, placas; a maneira como ela lida conosco. Isso é agora, acredito, menos um sintoma e mais um assunto.     Para o coordenador do programa, Eduardo de Jesus, é inevitável não pensar em questões políticas ao ver os fragmentos dos monumentos presentes nas obras de Bilac e as narrativas que eles sutilmente sugerem.

“Se os monumentos, em sua maior parte, servem para marcar fatos, pessoas e contextos históricos na memória coletiva solicitando com isso uma certa versão oficial da história, as inscrições humanas ou da natureza sinalizam as histórias menores e que se perdem na tramas temporais da vida cotidiana. Daniel traduz essa dinâmica temporal, entre permanência e efemeridade, não apenas com os materiais, mas sobretudo com o vigor das rasuras e a intensidade dos apagamentos que se repetem exaustivamente deixando apenas fragmentos e vestígios dos monumentos”, diz.

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