Davi de Jesus
do Nascimento


o suor da testa mora dentro dos marimbondos  

Curadoria: Júlio Martins

26 de outubro a 08 de dezembro de 2019

Davi de Jesus do Nascimento (1997 - Pirapora, MG) é artista barranqueiro curimatá, arrimo de muvuca e escritor fiado. Gerado às margens do Rio São Francisco - curso d’água de sua pesquisa - trabalha coletando afetos da ancestralidade ribeirinha e percebendo “quase-rios’’, no árido. Um de seus maiores interesses para a nascença na prática primária da pintura é a terra, mãe inicial. Utiliza o corpo como instrumento de medida do mundo. Corpo-médium, confrontado e confundido com a natureza. Uma natureza aquática, barrenta e silenciosa; que pode ser lida como isca, peixe e pedra.

PROJETO

A exposição o suor da testa mora dentro dos marimbondos apresenta trabalhos recentes do artista barranqueiro curimatá - Davi de Jesus do Nascimento. Natural do norte de Minas Gerais, da cidade de Pirapora, e gerado às margens do Rio São Francisco - curso d'água de sua vida e também de sua pesquisa artística -, Davi localiza suas performances, fotografias e acervo imagético familiares, objetos apropriados e reencantados, desenhos feitos em aguamento barrento e vídeos na paisagem ribeirinha de suas origens. Sensível "aos gemidos das carrancas naufragadas e aos gritos de alerta dos surubins e saruês", reconstrói elementos cotidianos, míticos e sagrados das águas sanfranciscanas em suas obras. Reconhece "nostalgia e ancestralidade densas" na corrente fluvial, vinculando intimamente sua memória familiar ribanceira ao fluxo do rio-tempo, "por de través o galgar trêmulo do adoecimento dos corpos de rio", ao relacionar a morte por afogamento de sua mãe à agonizante situação do Rio São Francisco (a ponte caiu, se vira e atravessa nadando - exorcismo de dor).

 

Há meses Davi carrega consigo, "na cacunda", uma imensa carranca de 20 kg, figura de proa das embarcações originárias de sua terra natal no século XIX e que vai protegendo e abrindo os caminhos singrados pelas canoas. Vindo de uma família de mestres carranqueiros, Davi, com esse gesto, demonstra seu desejo de manter-se ancorado às águas espessas do rio e honrar a cultura barranqueira que forja e alimenta seu ser: "Prometi vida às águas sanfranciscanas a partir de meu fazer artístico". Assim, seus oratórios são feitos a partir de proas de barcos construídos por seu pai, erguidos no chão do espaço expositivo e ornados com vestígios da umidade da terra, da suculência dos tamarindos, do fedor das escamas viscosas dos peixes, das carniças molhadas de sua comunidade, das correntezas e demais "águas guardadas" que esconde em si (oratórios). Já as partes anteriores das mesmas embarcações se acoplam para, sob o véu de um mosquiteiro, tornarem-se um "leito" - palavra que o rio e seu corpo, novamente, partilham em cumplicidade (caixão).

 

Em pesca-ameaça de naufrágio da barca ou ensaio para morrer com o Rio, a ação de Davi narra um nascimento ou batismo às avessas, já que o artista é pescado pelo pai desde as águas para a canoa, como num relato mítico em que gênese e morte se dissolvem, indistintas. Para Davi, "é importante lucidar que os rios nunca morrem. E que eles se vingam. O Rio São Francisco - este que não canso de moer em meus dizeres e continuo tendo ao lado, como no quintal em que nasci, cresci, e sobre o qual me pego pensando a todo instante - vai se transformar num gigante curso d'água de pimenta braba para banhar os olhos de quem o mata. Eu cego com ardência o andado de meus inimigos enquanto eles se banham. Tomo corpo de sucuri para destruir suas casas". 

 

Júlio Martins, curador. 

MAPA E LEGENDA

DAS OBRAS

1) "visita é bom só até três dia, depois começa a feder peixe"

Tapete impresso, 2024


2) "grito de alerta"

carta do rio para a população barranqueira encontrada nos documentos de minha mãe junto com meu umbigo embrulhado numa gase, jornal impresso, 33x24 cm, 2000


3) "a ponte caiu, se vira e atravessa nadando"

exorcismo de dor, lembrete e fotografia contidos dentro de fragmento de álbum, 33x26 cm, 2013-18. trabalho realizado dias após a morte de minha mãe.


4) "oratório I"

fragmento de embarcação construída pelo meu pai, objeto de águas guardadas,
300x80x40 cm, 100 kg, 1998-2019


5) "oratório II" 

fragmento de embarcação construída pelo meu pai, objeto de águas guardadas, 300x80x40 cm, 100 kg, 2003-2019


6) "caixão"

ou "sileciador de muruins", fragmentos de embarcações construídas pelo meu pai com mosquiteiro, objeto de águas guardadas, 215 kg, 1998-2003-2019


7) "conversa afiada"

áudio de minha bisavó Francisca, 33 segundos, 2019


8) "pirão de peixe com pimenta"

vídeo VHS do acervo de família, 3'57", 2001


9, 10, 11) "a correnteza zanza silêncios"

aguamento barranqueiro, 55x37 cm, 2019


12) "pesca-ameaça de naufrágio da barca ou ensaio para morrer com o rio"

ritual de rede prá engasgo de espinha, fotografias, 40x60 cm, 2016. crédito: Bicho Carranca


13) "inundador de barcas de afago" ou "anti-gemido de carrancas naufragadas"

objeto de águas guardadas, cabeça de saruê fincada em corda torada de âncora, 40x42x6 cm, 2017-18


14) "corpo-embarcação"

fotografia analógica, 23x17cm, 2019. crédito: Alexandre Lopes
 

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Perfomance

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