Gilson Rodrigues

Por trás das formas

​A série de obras que compõem a exposição “Por trás das formas” de Gilson Rodrigues constrói um instigante conjunto de propostas e estratégias ligadas a imagem, acionando relações entre tempo, memória e vida cotidiana.

 

Partindo de uma investigação da tradição da pintura, Rodrigues inicialmente buscou em antigas peças de louça e conjuntos como jogos de chá, jantar ou mesmo pequenas caixas e outros utensílios domésticos a inscrição imagética. Os objetos de um lado imediatamente acionam o ambiente doméstico e o universo da vida cotidiana por suas funções mais ordinárias, mas de outro formam um expressivo conjunto de discursos e fabulações que se constituem pelas imagens (quase) inocentes que habitam as superfícies desses objetos com cenas bucólicas e idealizadas.

 

Esse tensionamento entre a função cotidiana e a presença das paisagens foi ao longo do tempo se complexificando nas obras de Rodrigues e agora emergem tanto na elaborada composição das pinturas quanto nos vídeos e objetos apresentados. Um vetor ligado ao tempo atravessa as obras nos convocando a entrar nesse jogo de imagens duplas cheias de referências vindas dos mais distintos meios (revistas, imagens da internet, manuais técnicos) em representações que acionam memórias em constante construção e desconstrução.

 

Esse gesto caracteriza uma pintura em diálogo com o domínio contemporâneo das imagens absorvendo procedimentos e estratégias de outros meios. Os retângulos presentes em muitas telas em densas camadas de tinta sinalizam a paisagem,  destituem as representações e provocam deslocamentos no olhar pela profusão de signos e referências que compõem as obras.

 

Assim como as pinturas, os vídeos também se relacionam intensamente com os objetos quebrados que se apresentam na galeria do Memorial Minas Gerais Vale. Gestos que configuram modos de tensionar as temporalidades em distintas formas de representação para refletir o tempo. Os vídeos nos mostram plantas crescendo ou blocos de gelo derretendo (assim como na abertura da exposição) dando a ver a aleatória “composição” dos objetos e suas alterações na forma. Expandir, reter e prolongar, ao extremo, o tempo ou torna-lo fluido e fugaz nas passagens entre suportes e estratégias é uma linha de força para entrar nas formulações conceituais acionadas pelas obras. 

 

Gilson Rodrigues nos fornece as pistas para nos conectarmos com uma peculiar relação entre os objetos, a vida cotidiana, as formas de representação e suas possíveis fabulações. Manual prático para aproximar fragmentos (ou quem sabe juntar cacos) da memória?

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