Luiza Alcântara

Tudo é Casa, Casca, Escasso, Ocaso, Corpo 
Curadoria: Júlio Martins

14 de setembro a 20 de outubro de 2019

Nascida em Belo Horizonte (MG) em 1993, formou-se em Audiovisual na Oi Kabum! BH - Escola Técnica de Arte e Tecnologia, em 2012. Em 2015, tornou-se bacharel em Artes Plásticas pela Escola Guignard - UEMG. Tem como principal objeto de interesse e pesquisa o espaço. Em suas produções, busca retratar as percepções individuais sobre determinado lugar e as relações entre os diversos elementos que o constituem. Seus trabalhos são desenvolvidos em meios variados, como o audiovisual, a cerâmica, o desenho e a gravura. Atua também com curadoria e produção em artes visuais.

PROJETO

Nesta exposição, a artista Luiza Alcântara apresenta desenhos, fotografias e cerâmicas, além da videoinstalação Desmanche, trabalho que exibe pela primeira vez. Nos vídeos,  vemos maquetes de casas onde a artista residiu ao longo de sua vida, feitas em argila e submersas em meio líquido, de modo que são dissolvidas e terminam por desaparecer. Em plena dissolução, portanto, estão os espaços da intimidade e da memória, como também o são a pele e o corpo, arruinados face o fluir acelerado de um tempo catastrófico, testemunho daquilo que Walter Benjamin chamou de "caráter destrutivo" e que "só conhece um lema: criar espaço; apenas uma atividade: esvaziar". Segundo a artista, "casas morrem lavadas pelo rio" nessas narrativas. A imagem da casa como espaço arquitetônico e subjetivo nos evoca o que Gaston Bachelard descreveu por "síntese do imemorial com a lembrança. Nessa região longínqua, memória e imaginação não se deixam dissociar". Sem restringirem-se à biografia de Luiza Alcântara, as casas são lugares que todos habitamos e carregamos nas lembranças. Comumente vinculados ao corpo e seus devires, os dados da memória íntima e da sensibilidade são tratados pela artista de modo a permitir tanto a metaforização dos sentidos, como a observação delicada de suas materialidades frágeis. Sobretudo em seus desenhos, há uma presença implícita do corpo como matriz motivadora das relações que estabelece com arquiteturas reais e imaginárias ("Afetos"), com vasos de armazenamento cuja inteireza se desfaz ("Potes de Ouro"), bem como com sementes e vegetais que insinuam antropomorfias ("No quanto de mim que se faz agora", "Vulvas" e "Aste"). A casa, como a linguagem, é morada do ser, abrigo e também pele cuja superfície interage entre exterioridade e interioridade, uma casca e também um corpo. 

 

Os trabalhos reunidos na exposição oscilam nas negociações entre certas estruturas com o vazio: seja nos espaços em branco dos desenhos, no oco das cerâmicas, nas casas a ruírem ou numa folha totalmente preenchida pelos traços delicados da artista. São poéticas as palavras que Luiza Alcântara colhe para concluir a respeito de sua produção: "Tudo é casa, casca, escasso, ocaso, corpo". Pois, para ela, as experiências diluem-se em suas próprias materialidades, como nas casas de argila a derreterem ou em potes feitos por lacunas e marcas ancestrais. Ademais, suas arquiteturas que se fragmentam, mapeadas por zonas cromáticas que atravessam e reafirmam a reconstrução afetiva do espaço, e mesmo formas orgânicas são, igualmente, estruturadas. Assim como as imagens de sementes, recolhidas à palma da mão da artista, convivem com réplicas feitas em cerâmica que repõem a solicitação do tato presente nas imagens e nas pequenas esculturas, ambas prolongando a extensão da pele pelo olhar.  

 

Júlio Martins, curador. 

MAPA E LEGENDA

DAS OBRAS

1) Desmanche
Videoinstalação com duas projeções, 2017-19 

2) Vulvas

Lápis de cor sobre papel, 66 x 52 cm, 2016

3) Aste

Lápis de cor sobre papel, 66 x 52 cm, 2016
 
4) Afetos

Lápis e aquarela sobre papel, dimensões variáveis, 2018-19

5) No quanto de mim que se faz agora: semente

Fotografia e cerâmica, dimensões variáveis, 2019

6) Potes de ouro

Tinta gráfica sobre papel, 110 x 75 cm, 2018

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